Política

20 centavos?

20 centavos

Por Rodrigo Japa

Milhares de jovens nas ruas, violência policial, abuso de autoridade, atentado contra o direito de expressão, violência contra a imprensa, vandalismo… todos estes fatos ocorreram recentemente pelas ruas do centro econômico do Brasil. Como explicar esses acontecimentos?

O ano de 2013 marca os 10 anos de governo do PT no Brasil. Em muitas áreas avançamos, em outras nem tanto e em algumas outras simplesmente ficamos estaguinados. Para entendermos o que tem levado os jovens para as ruas hoje, precisamos entender um pouco sobre o que significou esses últimos dez anos para o Brasil.

Lula assumiu a presidência do Brasil em 2003, em meio a mudança de moeda, a luta desenfreada do governo em busca do controle da inflação, a dívidas com o FMI, privatizações, desigualdade social em ascendência, entre outros problemas crônicos que nosso país atravessava. Você que lê esse artigo e tem 20 anos de idade com certeza não se recorda de como era o país antes de 2003. A partir deste ano o país teve sua moeda estabilizada, pagou a dívida com o FMI, freou as privatizações, provocou a maior migração de classe social da história reduzindo drasticamente a pobreza extrema e a miséria, gerou empregos, ampliou o acesso a educação superior, transformou-se em um país de economia ascendente, etc, etc. Tudo muito bom. Mas nem tudo é perfeito.

A geração de empregos e a ampliação de oportunidades de acesso ao ensino superior ajudou milhares de jovens a entrar no mercado de trabalho. Esse jovem, tachado pela mídia de “classe média”, que hoje tem a oportunidade de comprar seu carro, seu tênis de marca, seu smartphone, em muito se difere do perfil do jovem dos anos 60/70/80, que enfrentou a ditadura. Também é diferente do jovem dos anos 90 que foi as ruas derrubar um presidente. Porém em uma coisa todos se parecem: são jovens, impetuosos, ansiosos, sonhares e que têm em si a mesma necessidade de falar e de serem ouvidos que os jovens de 10, 20, 30 anos atrás. A cultura mudou. Os sonhos mudaram. Os tempos são outros. Os jovens são os mesmos.

No fervor da MPB, de Chico, Caetano, Gil, Gal, Vinicius, Toquinho e tantos outros que cantavam a revolução em prosa e poesia os “antigos jovens” eram embalados e motivados a reivindicar, a se organizar, a ir para as ruas, a lutar. O inimigo era o sistema, a opressão. E nessa toada as ruas eram tomadas, direitos eram exigidos, confrontos eram travados. O estado de um lado, soberano e imponente, a juventude do outro, rebelde e impetuosa. Dos conflitos surgiram prisões, torturas, mortes, depredações, atos de vandalismo, sequestros. E os que viveram tudo isso ainda estão vivos (muitos deles) para nos descrever como foi.

Os grandes ídolos mudaram. A música dos guetos, muitas vezes com letras de protesto carregadas por um uma nova linguística, já serviria por si só pra demonstrar que vivemos outro tempo. Vivemos uma geração que luta hoje por outras causas. Querem poder usar seu corpo livremente, amar sem preconceitos. O “classe média” passa pelas ruas de São Paulo em seu carro do ano ouvindo Racionais e cantando Nego Drama. O jovem caminha pela rua com seu smartphone tocando funk (na maioria das vezes sem fone de ouvido, é verdade). Convivemos hoje com uma cultura de apelo sexual, vide as músicas e programas de TV que fazem sucesso. Isso sem falar no fator mais importante na transformação de toda essa geração: a internet. A internet mudou a forma das pessoas se expressarem, interagirem e se informarem. A TV, que antes era o principal meio de informação, passou a ter um papel cada vez menor nesse universo on line ao qual fomos conectados. Hoje não precisamos mais assistir o jornal da noite pra saber o que aconteceu durante o dia. Basta um celular com internet para obtermos em tempo real relatos detalhados sobre tudo o que está acontecendo neste momento em diversas partes do mundo. As redes sociais ampliaram a comunicação entre os jovens. Nós produzimos a informação, bem diferente de antes que éramos expostos a ela sem elementos suficientes para saber o que era de fato real. E os 20 centavos?

Entender as mudanças do Brasil nos ajuda a entender um pouco as recentes manifestações da juventude. As pessoas que hoje nos governam parecem já ter esquecido o que é ser um jovem. Estamos vivendo um conflito de gerações. De um lado uma geração que lutou contra a ditadura (ou que apoiou a ditadura), que participou ativamente na transformação do país, ajudando ou tentando avacalhar, e que envelheceu acreditando serem os detentores de todo o saber, as autoridades máximas e supremas. Do outro uma geração que aponta os erros cometidos e cobram melhoras, “ou mudanças”, na forma de gerir a política do país. Uma geração que elegeu novos inimigos, muitos destes que eram outrora vistos como heróis. E essa galera, tachada por não saírem da frente do computador, tomam agora as ruas para provarem que existem. Do jeito deles, com as causas deles, mas existem e ganham cada dia mais força. A força da juventude que lhes é inerente, força essa que a outra geração já se esqueceu, ou insiste em não se lembrar.

Não são apenas 20 centavos. É um sistema político defasado, uma forma antiga de governar. E enganam-se aqueles que acham que o movimento é sem causa. São várias as causas que se confluem, tornando o movimento ainda mais corpulento. Cada um do seu jeito, com a sua tribo, exigindo ou reivindicando aquilo que lhe cabe, que lhe indigna, que lhe revolta. E quando todos se unem assustam.

As juventudes partidárias (faço parte de uma) vêm um pouco a reboque desse processo. Os jovens partidários aprenderam com o tempo a defender o projeto de seu partido e políticos (nada mais natural). Isso é conflitante quando vemos atitudes inexplicáveis dos representantes que nós ajudamos a eleger. E isso em nada tem a ver com direita, esquerda, meio, lateral, defesa, etc. Isso tem a ver com o conflito que o jovem partidário tem que lidar. Defendo o que acredito ou defendo o que acredita aquele que ajudei a eleger? Novos partidos surgem para tentar dar conta de suprir os anseios dessa geração que agora mostra sua cara. Porém se mostram mais do mesmo, insuficientes. Os partidos políticos precisam repensar sua postura. Precisam entender o que se passa. Precisam mudar o linguajar e a postura. Ou sentam para trocar uma ideia com essa galera, transformando-os em atores nos executivos e parlamentos, ou serão tragados por uma onda de inconformismo. Não se trata em abrir mão do poder. Se trata de compartilhar os espaços decisórios, transformando o jovem em formulador, e não o tratando como imaturo, o obrigando a aceitar tudo aquilo que lhe é imposto como sendo o correto. E o jovem partidário, muitas vezes condicionado a defender e aceitar, perde aos poucos o contato com a realidade. Aliás, o jovem que vai a rua não quer ser tachado como sendo do partido A, B ou C. Ele quer ser apenas ele. E o velho vicio de “demarcar espaço”, entre nós mesmos e na sociedade, faz com que os jovens não renovem e revigorem os partidos. Pelo contrário, provoca a fiel reprodução de tudo aquilo que a juventude hoje questiona e que os afasta cada vez mais da política partidária.

Como me parte o coração ver homens e mulheres, ex jovens, que outrora protestaram contra a tarifa, contra o patrão, contra a má qualidade da saúde, usando muitas vezes da força e da violência para se fazerem ser ouvidos, hoje reprimem aqueles que fazem o mesmo, alegando que não há causa. Há causa! E a causa é a mesma de anos atrás: o sonho de uma sociedade melhor e mais justa, a força e o ímpeto de ser jovem.

No meio de tudo isso existem aqueles que querem se promover, tornar-se referencia. Esses coitados ainda não perceberam que não existe espaço para heróis. Nesse movimento todos são um só. O jovem vai pra rua para falar, para demonstrar que ele pode mais, e não para promover ou eleger um novo burocrata. Não existe espaço para personalismo. O movimento é de todos, para todos, cada qual com seu objetivo.

Os governantes acham que o velho discurso de valorização da juventude cola. Sabe, aquele mesmo que estamos cansados de ouvir eleição após eleição? A política hoje virou a dança do quadrado: faz uma escola, um posto de saúde, um ponto de ônibus e asfalta uma rua. Na eleição falamos que vamos valorizar e dar prioridade para a juventude. Prometemos um monte de coisa. Pronto! Mas não é isso. O que essa juventude cobra é uma política transparente, de ações afirmativas, que fuja da lógica das construções grandiosas e das superproduções. Chega de pão e circo. Políticas afirmativas e inclusivas devem ser implementadas urgentemente. Mas não é só mais o pão pro café da manhã. É incentivo real a cultura, é investimento significativo na qualidade de ensino, é transformar as cidades em locais de convivência. O velho modelo de governo acredita na alienação do jovem como maneira de perpetuar o poder. Porém a informação está chegando, quer o governo queira, quer não. O jovem está se organizando graças a tentativa de alienação propagada pela educação brasileira. Obras super manufaturadas, licitações fraudulentas, políticos cada vez mais ricos, isso é o que está provocando este levante popular. E você ainda me diz que são jovens sem causa? A juventude não está dizendo que quer ocupar o lugar dos políticos. Não querem o poder. Querem apenas que aqueles que lá estão de fato os representem. Afinal o poder é do povo, e não dos governantes. Quem manda no Brasil são os brasileiros, e não os políticos.

O Brasil melhorou muito nos últimos anos. Mas temos muito ainda por vir. E enquanto os movimentos forem rechaçados da maneira como estão sendo pelo poder público muitos do que assistem tudo pela TV ou acompanham pela internet sentem-se compelidos a ir as ruas. E o número apenas aumentará. Não é pelos 20 centavos. Hoje são 200 mil motivos que compelem os jovens a tomarem as ruas. E os motivos aumentarão!

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Um pensamento sobre “20 centavos?

  1. Excelente explanação!
    Mas para sairmos da zona de conforto e estagnação é preciso coragem.
    E ter coragem não significa ausência de medo.
    Ter coragem significa ter o necessário para o primeiro passo; pois uma vez iniciada a jornada a cada passo adquirimos maior equilíbrio e força nos próximos passos.

    “A coragem é a primeira das qualidades humanas, porque é a qualidade que garante as demais.” Winston Churchill

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