Comportamento

Amor ao futebol ou intolerância e preconceito?

galo

Por Pedro Munhoz

O combate ao preconceito em um país como o Brasil é permeado por dificuldades das mais variadas, mas nenhuma delas, talvez, seja mais danosa e nos torne mais imunes à superação de discriminações quanto o status de “costume” ou de “tradição” que gozam as manifestações preconceituosas em determinados círculos. O futebol, esporte mais amado pelos brasileiros é, certamente, um desses lugares sociais em que manifestações preconceituosas de variados matizes ainda grassam de forma impensada, desimpedida e, algumas vezes, cega.

Todos os brasileiros, mesmo os que, como eu, não são fanáticos pelo esporte, sabem que o futebol desperta paixões extremadas, capazes de revelar o que há de melhor e o que há de pior nos torcedores. Torcer para um time é uma parte importante da vida, da sociabilidade e da própria identidade de muitos brasileiros e, em ambientes de torcida, é natural que nos sintamos irmanados com aqueles que compartilham de nossas paixões por determinado clube. As torcidas, internamente, compartilham códigos que vão desde os oficiais, como o hino, a camisa e a bandeira, até um arsenal de chistes, palavras de ordem, canções e provocações contra os times rivais, que acabam por fazer de cada um dos torcedores de determinado time, parte de um grupo mais ou menos coeso e solidário.

Isso não é necessariamente ruim. A paixão pelo futebol, tão cara à nossa cultura, é algo bonito de se admirar. O clamor das torcidas nos campos e nas ruas após a vitória e mesmo a tristeza genuína e a raiva que sentimos diante de uma derrota colocam o futebol em um lugar de catarse, de libertação e de livre expressão de nossas paixões que dificilmente iremos encontrar em alguma outra manifestação cultural do Brasil. Mesmo as provocações entre times rivais são parte desse fenômeno tão nosso e que poderia ser também tão bonito, não fosse ele constantemente invadido pela sanha hedionda dos ódios e preconceitos que, desde cedo, aprendemos a aceitar como normais.

Podemos estar atentos em todas as outras facetas de nossas vidas contra a propagação de preconceitos e nos pegarmos, por mero costume, xingando um juiz desonesto de “viado” ou incitando um jogador de atuação fraca durante uma partida a “agir como homem”. Podemos, em nosso cotidiano, tentar nos pautar por uma atitude respeitosa e empática para com todos e, no calor da torcida, provocar o adversário insinuando que ele é homossexual. Pode-se ver crianças de seis ou sete anos dizendo que os torcedores desse ou daquele time são “bichinhas”, sem que o menor nem mesmo saiba o que isso significa. As paixões trazem à tona o entulho preconceituoso que foi despejado em nossas cabeças durante nosso processo de formação humana e, no futebol, esse entulho vem a tona muito facilmente. E sim, meus amigos, tentar desqualificar alguém com palavras ou atos que insinuem orientação homossexual é homofobia, assim como tentar desqualificar alguém pela cor de sua pele é racismo.

Entendam que o futebol não é o culpado pelos nossos preconceitos e, como tal, não deve ser combatido. É o fato, justamente, de ele ter acabado servindo, infelizmente, de vitrine para enraizados preconceitos de gênero, orientação sexual e, em um pouco menor medida em nosso país, de raça, que torna necessária a adoção de uma postura mais reflexiva e de maior prontidão quanto ao que acontece nas arenas desportivas, no interior dos clubes e nas arquibancadas.

Por vivermos em uma sociedade que até bem pouco tempo atrás tratava, na esfera legal, as mulheres como indivíduos de segunda categoria, o futebol é extremamente machista. Embora se conheçam times femininos desde o século XIX, essas iniciativas raramente vingaram e foram vistas sempre com um caráter de excentricidade e escândalo. No Brasil, o primeiro time de futebol feminino brasileiro, criado pelo Araguari Atlético Clube de Minas Gerais em 1958, existiu durante apenas um ano e terminou após campanha acirrada da Igreja Católica, que via na iniciativa uma “ameaça à família”. Mesmo hoje, o futebol feminino conta com pouco espaço na mídia, parcos patrocinadores e o mundo do futebol continua sendo dominado por homens. São homens a esmagadora maioria dos locutores, comentadores e repórteres esportivos e não conseguimos, ainda, deixar de nos surpreendermos quando nos deparamos com uma mulher que entende das regras do esporte e que acompanha assídua e apaixonadamente os campeonatos (conheço várias mulheres que entendem mais de futebol do que eu, mas a práxis machista do esporte ainda as relega ao caráter de notáveis exceções).

Foi de uma torcedora mineira, atleticana fanática e conhecedora de futebol, mas preocupada e ciente dessa parte feia das práticas e estrutura do mundo do futebol, que nasceu, na semana passada, a fan page Galo Queer, que se propõe a ser um espaço antissexista e anti-homofóbico para a expressão da paixão pelo time mineiro. O lema “porque paixão pelo Galo não tem nada a ver com intolerância” pode ser lido logo na descrição da página, não deixando muito espaço para especulações. Mas elas ocorreram, e de forma violenta.

Muitos torcedores do Atlético acostumados a serem vítimas e a usarem de ofensas de cunho homofóbico para desqualificarem torcedores adversários, pensaram que a página era uma iniciativa jocosa de cruzeirenses, uma provocação. Outros tantos, depois de entenderem que a página era numa iniciativa séria, soltaram, e transcrevo, as seguintes pérolas de puro preconceito, entre muitas outras, que incluíam ameaças de morte:

“Se vocês levarem essa p….  pro campo eu juro por Deus que vou tacar copo de mijo em vocês, cambada de p… fumadores de maconha e de esquerda da UFMG, filhos da p…” (sic)

“Como você que diz que é torcedor, desrespeita a instituição Clube Atlético Mineiro. Não tenho nada contra a atitude, mas manchar o simbolo de um clube de mais de 100 anos de história é sacanagem. Não sou homofóbico, não agrido Homossexuais e tenho até amigos Gays assumidos. Mas você trate de RESPEITAR a instituição, utilizando o escudo correto. RESPEITE para ser RESPEITADO. Fique na paz de Deus!!!” (sic)

“ou vey apaga isso dai sow vai pegar mau n sou homofobico mais a torcida alvi-negra n merece ficar tolerando dois homens ou mulheres juntos n isso e errado, fora as zuaçôes” (sic)

Como se vê, a criadora da página acertou o alvo. A homofobia e o sexismo são práticas tão comuns entre as torcidas que a página foi alvo de ataques dessa natureza até mesmo (e eu diria, principalmente), por torcedores do time que a criadora da página ama e que, por amor ao esporte e à torcida, queria desvincular do preconceito.

É possível sim torcer sem desrespeitar e agredir homossexuais e mulheres. O futebol, intrinsecamente, a despeito do histórico machista e homofóbico que marca, até hoje, o esporte, não é culpado de nada. Mas é preciso assumir que se trata de uma luta árdua.

Para termos uma vaga ideia de como homofobia e sexismo estão enraizadas no mundo do futebol podemos, por um lado, refletir sobre as formas mais comuns de provocar as torcidas adversárias. Atleticanos chamando cruzeirenses de “Marias” com propósitos ofensivos e cruzeirenses chamando o clube adversário de “Gaylo”, nesse triste mundo em que vivemos onde o feminino e a orientação homossexual ainda são características tidas como ofensas. Mas o problema é mais profundo.

Podemos nos recordar de entrevista do jogador Ganso, em 10 de junho de 2010, ao jornal Estado de São Paulo, onde ele declarou que existiam homossexuais no futebol, mas não no time em que jogava, o Santos, “graças a Deus”, ou da entrevista de Túlio Maravilha ao Terra Magazine, em 19 de maio de 2011, em que ele reconhecia a existência de jogadores homossexuais em vários times, mas pontuava que eles não assumiam por receio de prejudicar suas carreiras. Mas nenhum caso é mais assustadoramente ilustrativo do problema do que o que envolveu o jogador Richarlyson e o dirigente do Palmeiras José Cyrillo Júnior.

Em 2007, Cyrillo insinuou em um programa televisivo que o jogador Richarlyson, que atuava no São Paulo Futebol Clube, era homossexual. O jogador, sabendo de como essa pecha poderia prejudicar sua carreira em um esporte povoado pela mais descarada rejeição aos gays, apresentou queixa-crime contra o dirigente por difamação.  O juiz da sentença, Manoel Maximiano Junqueira Filho, ao proferir a decisão, esqueceu-se por um momento da condição de magistrado ao lidar com o caso e, vestindo a camisa da homofobia mais rasteira (a mesma dos torcedores que ameaçaram a idealizadora da Galo Queer) e, dando ganho de causa ao dirigente, declarou o que segue, entre outros absurdos, sem nem ao mesmo analisar juridicamente o pedido do jogador:

“Já que foi colocado, como lastro, este Juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual. Há hinos que consagram esta condição: ‘OLHOS ONDE SURGE O AMANHÃ, RADIOSO DE LUZ, VARONIL, SEGUE SUA SENDA DE VITÓRIAS…’.”

“Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma Federação. Agende jogos com quem prefira pelejar contra si.”

“se (Richarlyson) fosse homossexual, poderia admiti-lo, ou até omitir, ou silenciar a respeito. Nesta hipótese, porém, melhor seria que abandonasse os gramados…”

Para todos que amam o futebol e que enxergam em certas ofensas e provocações de praxe muito mais do que indícios de enraizados preconceitos de nosso povo, é importante desvincular o esporte desse tipo de comportamento odioso e excludente. Torcidas são ou deveriam ser um grupo aberto, inclusivo, abrangente e é triste que essas práticas excluam ou ofendam pessoas que podem e têm amor ao esporte no que ele tem de mais fascinante e bonito.

Por isso, meus parabéns à Galo Queer e às iniciativas de outros times que se seguiram, pela coragem e pela lucidez. Ao expressarmos nosso amor à camisa, deixemos de lado, por favor, o ódio e a rejeição às diferenças.

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