Política/Religião

Malafaia e Feliciano: cristianismo ou farisaísmo?

jesus

Por Pedro Munhoz

Não sou cristão nem, tampouco, sigo qualquer religião. Isso não significa, porém, que a Bíblia e outros livros religiosos não me fascinem; pelo contrário. Desde a minha adolescência, tenho a Bíblia cristã na cabeceira de minha cama e, vez ou outra, gosto de folheá-la descompromissadamente. Há alguns anos, cheguei mesmo a ler a Bíblia inteirinha e, pasmem, até comecei a fazer um cursinho de língua hebraica para que eu pudesse ler o Antigo Testamento no original, tarefa que, por razões diversas, não consegui empreender.

Como nunca fui exatamente um homem religioso, meu interesse no compêndio sagrado do cristianismo é simplesmente cultural e histórico, o que não me impediu, jamais, de ler, em alguns trechos da obra mais famosa do mundo, pérolas de notável sabedoria. Se todos os livros da Bíblia, em minha opinião, devem ser interpretado sem perder de vista a época e o contexto geográfico em que foram escritos, alguns trechos, por razões diversas, gozam mesmo de impressionante atualidade e podem abarcar prescrições éticas e comportamentais muito boas para os dias de hoje.

O fato de eu não ter abraçado nenhum sistema de crenças religiosas permite que eu leia a Bíblia de forma livre, separando os preceitos que julgo pertinentes ou, de alguma forma, edificantes ou úteis, daqueles que reputo anacrônicos, estranhos, sem sentido ou simplesmente cruéis. Mas o que dizer de líderes religiosos que, brandindo sempre alguma autoridade e estudo em teologia, empreendem a mesma separação para, ao cabo, enfatizarem em suas pregações apenas os preceitos anacrônicos, estranhos e cruéis que eu haveria por bem descartar? Será a Bíblia deles muito diferente da minha? Ou será que alguma intenção oculta os está guiando na seleção de preceitos que fazem?

Os quatro livros da Bíblia que contêm, no meu modo de ver, o maior número de mensagens e mandamentos aplicáveis à atualidade são os Evangelhos. Os livros de Mateus, Marcos, Lucas e João narram, justamente, a vida, os milagres e a pregação religiosa de Jesus Cristo. Deveriam ser, pela minha lógica, talvez simplória, o cerne do cristianismo e a principal fonte de onde deveriam beber os fiéis. E embora, ultimamente, eu tenha encontrado excelentes cristãos, que realmente parecem pautar suas condutas pelos Evangelhos de forma lúcida, consciente e humana, não me parece que trechos exemplares desses quatro livros tão importantes estejam sendo levados em conta por religiosos famosos e influentes, como Silas Malafaia e Marco Feliciano.

Todas as vezes em que me deparo com os pronunciamentos desses dois pastores ou sou confrontado com suas opiniões públicas e atitudes, é impossível que não me venha à mente um grupo que, nos Evangelhos, é constantemente antagonizado por Jesus e que serve, nas pregações de Cristo, como contra-exemplo de condutas, como pessoas a quem não se devia imitar para alcançar o Reino dos Céus: os fariseus.

Os fariseus eram um grupo de religiosos, surgido cerca de dois séculos antes do nascimento de Cristo que pregavam que a salvação encontrava-se apenas na mais estrita observância da Palavra de Deus. Eram, na época de Jesus, bastante respeitados e tidos e pela maioria dos judeus como exemplos de fé.

Segundo os Evangelhos, embora os fariseus buscassem se pautar publicamente de forma especialmente piedosa, pecavam por soberba e cobiça. Julgavam-se donos da verdade e mestres da lei e gostavam das honras, do dinheiro, dos títulos mundanos. Em Marcos 12: 40 e em Lucas 20: 47, Jesus os acusa de “devorarem as casas das viúvas” (provavelmente pedindo delas doações avultadas ao Templo). Por outro lado, esse mesmo grupo é acusado de hipocrisia em diferentes trechos da Bíblia, entre os quais destaco Mateus 23: 23, 24, onde são acusados de, enquanto atentavam minuciosamente aos dízimos sobre “a hortelã, o endro e o cominho”, deixarem de lado os valores mais importantes da religião que, segundo Jesus, seriam a “ a justiça, a misericórdia e fidelidade”.

Cheios de ambição políticas e financeiras e vivendo em uma terra dominada pelos romanos, membros desse mesmo grupo de santarrões hipócritas perguntaram a Jesus, em Mateus 22: 17, se parecia lícito a Cristo que os judeus pagassem impostos a Roma. Jesus teria respondido com a frase bíblica que parece, às vezes, ser uma das mais ignoradas de toda a Escritura por pessoas como Malafaia e Feliciano: “Daí, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, separando, de forma exemplar, os domínios da religião e das leis dos homens, da fé e da política.

Eram esses mesmos fariseus, tão avessos aos ensinamentos de Cristo que, em João, 8, participam de um dos mais belos trechos dos Evangelhos. Tendo Jesus descido do Monte das Oliveiras, trouxeram os fariseus e escribas a Cristo uma mulher acusada de adultério. O adultério, segundo as leis do antigo testamento (as mesmas que Malafaia e Feliciano evocam para condenar a homossexualidade), a mulher deveria ser apedrejada até a morte. Queriam os fariseus que Jesus cumprisse a lei, mas as coisas não saíram exatamente do jeito que eles esperavam. Jesus, ao invés de organizar o linchamento público ou endossá-lo, desafiou os presentes com os seguintes dizeres: “Aquele que não tiver pecado, que atire a primeira pedra.” Como nenhum deles reagisse e procedesse à execução, a mulher viveu. É nesse mesmo capítulo e, ainda, em repreensão aos fariseus que queriam que o apedrejamento acontecesse, que Jesus respondeu com outra frase célebre, embora ausente do vocabulário teológico de Malafaia e Feliciano:  “Vós Julgais segundo a carne; eu [Jesus] a ninguém julgo”.

Não temos apedrejamentos no Brasil hoje em dia como forma de punição para delitos morais, mas talvez tenhamos alguns equivalentes contemporâneos. A demonização pública, enfática e persistente que fazem certos religiosos contra a orientação homoafetiva não se assemelha, metaforicamente, a um apedrejamento simbólico?

Jesus proferiu palavras duras com relação a determinados temas, mas sempre deixou claro que o julgamento dos atos humanos caberia a Deus e que os preceitos que ele ditava diziam respeito ao Reino dos Céus e, nunca, aos domínios mundanos. O protocristianismo santarrão, vaidoso e opulento de homens como Feliciano e Malafaia preceituam o contrário: a religiosidade deve pautar a política institucional aqui na Terra e, aos que eles julgam como pecadores, devem ser negados direitos civis básicos, concernentes às leis dos homens.

Nada tenho contra as religiões, apesar de ser constantemente acusado de padecer deste tipo particular de intolerância. Creio, porém, que a mistura entre um tipo de religiosidade calcada na interpretação literal e seletiva de preceitos milenares e a política institucional não pode redundar em nada de positivo para o bem comum. Nisso, estou de acordo com a Constituição da República de 1988, que estabeleceu que o Brasil é um país laico.

Para quem não sabe, país laico é um país não confessional, ou seja, que não tem religião oficial. Por não adotar, constitucionalmente, nenhuma religião específica, o país laico privilegia (ou deveria privilegiar) a liberdade religiosa e demais liberdades e direitos fundamentais, tratando todas as manifestações religiosas como legítimas e permitidas no território nacional, ao passo em que deve cuidar, também, para que o exercício da liberdade religiosa não afete nem a esfera pública e legal, ditando-lhe preceitos oriundos de dogmas religiosos diversos e nem, tampouco, as demais liberdades e direitos constitucionalmente assegurados. Por isso, não posso ser a favor de um tipo de religiosidade que, imiscuindo-se na política e confundindo os limites tênues entre liberdade religiosa e a imposição de dogmas via parlamento, esmera-se, tão-somente, em tolher ou perturbar justas reivindicações de setores da população por dignidade e igualdade de direitos.

Qualquer ameaça ao Estado Laico da parte de um grupo específico de religiosos ameaça, portanto, não somente as minorias de direitos como, também, a liberdade de culto dos demais grupos religiosos e o frágil equilíbrio que permite a existência de nossa jovem democracia.

Mas não se enganem: os neofariseus não estão preocupados com o bem comum, com o estado laico ou com os Direitos Humanos. Eles querem fama, holofote, dinheiro e poder. Querem ser chamados de ungidos e angariar a admiração dos fiéis demonizando modelos de ver e sentir o mundo diferente dos seus. Forjam ameaças de apedrejamento para aqueles que não seguem sua interpretação bíblica e fornecem, em seguida, salvo conduto para quem passar a concordar com o ódio que pregam e a seguir seus ditames.

O que Jesus teria a dizer para homens como eles?

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