Política/Religião

A CDHM e a religião

marco feliciano pai mãe

Por Rodrigo Japa

Por algumas vezes nesse blog escrevi ou postei artigos que falam um pouco sobre a relação entre religião e política e sobre a laicidade do nosso Estado. Demorei um pouco pra falar sobre Marco Feliciano e a Comissão de Direitos Humanos e Minorias mas passeando pelos canais de TV hoje vi uma declaração de Silas Malafaia (ele de novo) que me motivou a escrever este artigo.

A CDHM foi fundada em 1995 e tem como atribuições receber, avaliar e investigar denúncias de violações de direitos humanos; discutir e votar propostas legislativas relativas à sua área temática; fiscalizar e acompanhar a execução de programas governamentais do setor; colaborar com entidades não-governamentais; realizar pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no Brasil e no mundo, inclusive para efeito de divulgação pública e fornecimento de subsídios para as demais Comissões da Casa; além de cuidar dos assuntos referentes às minorias étnicas e sociais, especialmente aos índios e às comunidades indígenas, a preservação e proteção das culturas populares e étnicas do País. É fundamental para apurar e combater qualquer tipo de violação aos direitos humanos, principalmente quando se trata se setores vulneráveis da sociedade (presos, índios, homossexuais, migrantes, afro-descendentes).

Marco Feliciano é pastor da igreja Assembléia de Deus e deputado federal pelo PSC. Marco é autor de declarações polêmicas. Seus projetos de lei são igualmente discutíveis. O deputado tentou inserir na grade curricular o ensino religioso, intitulando o projeto como “Papai do Céu na Escola”. Outro de seus projetos versa sobre um plebiscito a respeito da união civil de pessoas do mesmo sexo. O deputado pastor declarou que os negros são amaldiçoados, que a AIDS é uma doença provocada pelos gays, que sentimentos homoafetivos levam ao ódio e que a igreja e seus preceitos se sobrepõe a política.

Após assumir a CDHM Marco Feliciano foi alvo de inúmeras críticas, vindas dos mais diversos setores da sociedade (setores os quais a CDHM representa). Em contra partida muitos líderes religiosos se pronunciaram a favor do deputado pastor. E o embate está longe de terminar.

Entender o contexto de tudo isso é importante para que possamos formar uma opinião sobre o assunto. Ouso dizer que estamos vivendo em um momento crucial da história, onde a trincheira entre esquerda e direita, entre a política e religião, entre os direitos humanos e o conservadorismo, se acentua. Acontecimentos por todo o mundo demonstram o quanto temas como estes se fundem e se confrontam.

Silas Malafaia declarou que o movimento feito contra Marco Feliciano é articulado por uma “esquerda comunista, humanista e por ativistas gays que mamam nas tetas do governo”. Ciro Sanches declarou que existe um movimento “evangelicofóbico” e que o deputado pastor assumiu a CDHM porque “Deus permitiu isso para impedir” o tal movimento. Bolsonaro manda manifestantes “queimar a rosca”. Do outro lado PT, PSOL, PCdoB e parte do PSB se declaram terminantemente contra o comandante da comissão. Movimentos organizados por todo o país manifestam nas ruas e nas redes sociais sua insatisfação, popularizando a frase “Feliciano não me representa”.

Construir um país democrático, igualitário e laico requer conviver com as mais diversas opiniões. Porém as opiniões devem ser expostas e respeitadas, e não impostas por um setor qualquer. A religião tem um papel fundamental na sociedade desde seus primórdios. Mas a imposição de um senso comum, seja ele de comportamento ou ideológico, provocou as fissuras mais relevantes da história da humanidade. Os preceitos religiosos impedem as pessoas de agirem de certas maneiras por temerem o pecado e o julgamento divino. A liberdade  religiosa garante o direito as mais diversas religiões de acreditarem naquilo que querem, de pregarem o que acreditam e de aceitarem para si  suas crenças como verdades absolutas. A mesma liberdade religiosa diz que os indivíduos devem respeitar crenças divergentes das suas.

Nos últimos dez anos construiu-se no Brasil o socialismo democrático. Paradigmas tem sido quebrados dia após dia. A construção desse novo Brasil passou pela construção de plataformas de governo que atendessem  os mais diversos setores da sociedade e os trata-se como iguais. O enfrentamento a violência contra as mulheres, os homossexuais, os índios, os negros, demonstra a busca por um estado igualitário. A reação de setores da sociedade que se colocam contrários a este debate demonstram os instintos conservadores mais primitivos ainda enraizados, muitas vezes culturalmente, em uma sociedade constituída sob a influência de preceitos religiosos arcaicos. Nada mais normal para um país desbravado e colonizado por jesuítas. A curva histórica demonstra a necessidade de repensarmos o formato de sociedade ideal, de assimilarmos suas particularidades, de jogarmos os preconceitos em uma vala e rediscutirmos assuntos primordiais para a convivência pacífica de todos.

Por vezes já me declarei contra a influência de religiosos na política de nosso país. Parlamentares não deveriam ser eleitos para defender interesses de determinados nichos sociais, interesses esses muitas vezes segregadores. Porém temos que conviver com essa realidade (isso é democracia). Segundo a bíblia Jesus não se envolvia com a política. Ensinou seus seguidores a respeitar os governos humanos porém declarou que “seu governo não fazia parte desse mundo”. Recusou-se inclusive a ser eleito liderança política. Partindo deste princípio a participação de lideranças religiosas na política é extremamente danosa para uma sociedade democrática. Lideranças políticas não devem ser tendenciosas, devem governar para todos, ultrapassando barreiras muitas vezes impostas pela fé e as crenças religiosas. Os governantes governam inclusive para os religiosos e não somente para eles. Empregar no estado uma política de preceitos religiosos significa rasgar nossa constituição, que garante direitos iguais para todos e todas, e sobrepujar homossexuais, negros, mulheres, índios, adeptos a religiões de matrizes africanas, ateus, a uma política segregadora e ditatorial (a ditadura da fé). Não foi isso que Cristo pregou.

Por fim a discussão a cerca da CDHM suscita um outro debate: a reforma política. Acordos políticos partidários nem sempre beneficiam o progresso do nosso país. Porém são necessários para se garantir a governabilidade. Pensar a reforma política é pensar o Brasil que queremos. Mas sobre a reforma política vou falar em um outro artigo.

Artigos relacionados:

A hipocrisia humana

“O Brasil é um Estado laico!” Será?

“Amo os homossexuais como amo os bandidos”

Anúncios

2 pensamentos sobre “A CDHM e a religião

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s