Política

Feliciano e o racismo à brasileira

marco feliciano

Por Pedro Munhoz

Desde que Marco Feliciano foi indicado por seu partido, o PSC, para assumir a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, a polêmica, os protestos e as denúncias contra o pastor não cessaram. Entre as muitas acusações que foram formuladas contra o deputado encontra-se a de racismo, pecha que, por motivos óbvios, tornaria inviável a permanência do deputado a frente de uma comissão parlamentar que, entre outras atribuições, deveria trabalhar pelo combate ao preconceito racial no Brasil.

As acusações de racismo contra Marco Feliciano baseiam-se, principalmente, em algumas declarações do pastor nas redes sociais e em vídeos de suas pregações disponíveis na internet. Nesses meios, é possível a qualquer internauta entrar em contato com a visão que Feliciano tem acerca dos africanos e de seus descendentes, que consiste, basicamente, na duvidosa assertiva teológica de que todos eles padecem de uma maldição divina. Essa maldição bíblica, imposta pelo patriarca Noé a um de seus filhos, Cam, e extensível à sua descendência, seria uma das causas das mazelas que hoje afligem não só o continente africano mas, também, os afro-descendentes brasileiros. A mesma interpretação do trecho bíblico era utilizada, como já disse em outra coluna, para justificar a escravidão negra e hoje, na boca de homens como Feliciano, serve ao propósito de naturalizar a miséria e o sofrimento dos africanos e afro-descendentes pobres e, ao mesmo tempo, pra impingir-lhes a responsabilidade sobre as mazelas sociais que os vitimam.

Não bastasse isso, Feliciano também atribui ao que ele chama de “feitiçaria” e “paganismo” parte dos sofrimentos dos negros ao redor do mundo. São esses os nomes que o pastor dá às religiões de matriz africana, conferindo a elas, em seu discurso, o estatuto de culto satânico, de algo inerentemente negativo, concepção que, além de embebida no mais óbvio racismo cultural, não se coaduna com as normas de respeito à diversidade religiosa presentes nas leis brasileiras.

Com isso tudo, não se pode taxar de levianos aqueles que acusam o atual presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados de racismo, ao passo que ele mesmo proferiu, publicamente e mais de uma vez, as opiniões expostas acima. Se as declarações do deputado não são o bastante para submetê-lo à persecução criminal, são, pelo menos, mais do que suficientes para que sua nomeação como presidente de uma comissão parlamentar, que tem por intuito a proteção das minorias e a luta contra o preconceito em nossa sociedade, seja questionada e combatida com veemência.

Feliciano e alguns de seus defensores, no entanto, responderam às acusações de racismo feitas contra o pastor dizendo que o deputado, por ser, ele mesmo, afro-descendente, jamais poderia ser racista. O argumento ganhou força após a publicação, nas redes sociais, de uma foto  do pastor entre sua mãe e o seu padrasto, negros. Para aqueles que insistem em defender a permanência de Marco Feliciano a frente de uma comissão que tem por propósito defender o exato oposto do que o deputado sempre defendeu, isso acabou ganhando ares retóricos de argumento irrefutável.

O blogueiro Reinaldo Azevedo, da revista Veja, por exemplo, famoso por atacar em seus textos toda e qualquer bandeira dos movimentos sociais, arrogou para si o papel de defensor do deputado e decretou a vitória do argumento de Feliciano sobre quem o acusava de racismo, alegando, em síntese, que negros não podem ser acusados de racismo contra negros.

Nada, no entanto, é menos verdadeiro. Negros podem sim ter preconceitos raciais contra negros, assim como mulheres podem ser terrivelmente machistas e homossexuais, muitas vezes, podem adotar discursos homofóbicos como prática cotidiana. Nenhuma dessas ocorrências é rara, inédita ou surpreendente e estou certo de que quase todo mundo pode dar exemplos de pessoas que, pertencendo a uma minoria de direitos, manifestam ódio, desprezo ou repulsa a essa mesma minoria, às suas conquistas ou bandeiras, de forma que o argumento de Reinaldo Azevedo e Feliciano não só me parecem obviamente falsos, como me arrisco a dizer que resultam de simples má-fé intelectual.

O racismo contra negros no Brasil é estrutural. Isso significa que ele se encontra tão fortemente enraizado em nossa cultura, que não é exagero dizer que, em muitas ocasiões, ele acaba funcionando como um filtro que nos leva a interpretar a realidade e os acontecimentos cotidianos de forma racista, sem que tenhamos consciência de que isso está acontecendo ou de que estamos, de fato, prejulgando alguém de forma injusta e negativa.

Há racismo em nossa linguagem popular, quando, por exemplo, chamamos o cabelo crespo de “cabelo ruim”. Há racismo em nossas revistas femininas e em nossa publicidade, que elegeram, em um país como o Brasil, um padrão de beleza caucasiano, branco, tão distante de nossa realidade e tão desonestamente reducionista. Há racismo nos cuidados especiais de que se cercam os seguranças de lojas e de shoppings quando vêem entrar no recinto um cliente negro, sendo que esse mesmo cuidado é tido como desnecessário quando se trata de um cliente branco. Há racismo no trânsito, quando diante de um mau motorista negro que comete uma imprudência, elege-se como xingamento a cor de sua pele, como se a perícia e a responsabilidade ao volante e cor da pele estivessem diretamente associadas. Há enfim, racismo nas pequenas coisas do cotidiano; um racismo tão disseminado e entranhado na maneira de vermos o mundo, que fica difícil nos desvencilharmos dele.

O racismo brasileiro chegou ao ponto em se alimenta, em boa parte, de sua negação. Um dos mitos identitários brasileiros mais longevos e perniciosos em nosso país é,justamente, o da democracia racial, segundo o qual o brasileiro, por ser um povo predominantemente mestiço, não é racista. A imagem de um paraíso tropical onde as raças se relacionam de forma harmônica e pacífica pode parecer aberrante quando utilizada para descrever um país que, durante mais de metade de sua história, escravizou os negros e os tratou não apenas como seres humanos de segunda categoria, mas como animais ou objetos.

Mesmo após a abolição do escravismo no Brasil, nosso governo e a intelectualidade ligada ao poder fez um esforço deliberado para, ao mesmo tempo, apagar o passado escravista brasileiro e para, por meio de incentivos à imigração européia, “embranquecer” o nosso povo. Nosso passado recente (não só o Brasileiro, mas de todo o Ocidente) elevou o racismo à categoria de ciência e considerava-se, há décadas atrás, que negros e índios eram provenientes de raças “inferiores” ou “menos evoluídas” que os brancos. Isso era dito sem nenhum pudor, e por vezes, ensinado nas escolas. Como foi que o Brasil, alheio à sua história de opressão contra os negros e alheio também à conjuntura mundial, poderia ter se imunizado do racismo e se construído como uma democracia racial? Sempre fomos racistas e sempre fizemos questão de negar o nosso racismo, como se isso nos definisse como brasileiros.

O resultado dessa esquizóide e sistemática negativa de algo tão óbvio, foi que o racismo, no Brasil, vicejou livremente e se entranhou em nossa cultura de tal forma que o discurso de opressão dos brancos contra os negros homogeneizou-se, adquirindo ares de senso comum disponível a negros e brancos com a mesma comodidade e abundância. Tornou-se tão perversamente “natural” inferiorizar os negros que, não raro, os próprios negros se inferiorizam e inferiorizam a outros negros com assustadora facilidade e de forma muitas vezes impensada.

Por isso, parece perfeitamente plausível que Feliciano, ao ler sua versão do livro de Gênesis, enxergue no trecho bíblico uma maldição aos africanos e aos negros que, definitivamente, não está lá. A tão falada maldição de Noé, que segundo o deputado-pastor teria atingido os africanos e seus descendentes, na verdade, segundo o Gênesis, teria atingido os Cananeus, povo que, ao tempo em que a Bíblia foi escrita, vivia no Oriente Médio, na região de Israel e do Líbano. A interpretação de que as vítimas da maldição seriam os africanos, embora bastante difundida, não encontra nenhum respaldo no texto do livro sagrado do cristianismo, embora, repita-se, tenha sido bastante popularizada na Idade Moderna para justificar a escravidão negra.

Feliciano não precisava, na verdade, ter adotado essa interpretação tão controversa e improvável da Bíblia, mas o fez, provavelmente, porque a sua pregação se ancora parcialmente na demonização das religiões de matriz africana. O “mal’, em diversas falas do pastor, encontra-se nos cultos afro-brasileiros, ao passo que as divindades desses cultos, no discurso do pastor, se transformam, literalmente, em demônios associados à Bíblia cristã. Essa ojeriza às religiões de origem africana, que se encontra presente nas pregações do pastor, por sua vez, tem claras raízes no discurso de opressão do cristão branco, senhor de escravos, sobre o negro escravizado e suas crenças, tidas pelos opressores, desde tempos bem remotos, como incivilizadas, heréticas e perigosas; esse discurso, aliás, é reproduzido por Feliciano em pleno século XXI sem que isso cause a estranheza. Assim como Feliciano diz amar os homossexuais, mas abominar sua prática, também deve sair por aí dizendo que ama os negros, mas abomina a cultura de seus ancestrais.

Mesmo sendo negro ou filho de uma negra, Feliciano, age, fala e pensa como um racista. Não será, portanto a origem (que ele se empenha em mascarar alisando o cabelo e usando lentes de contato) que irá fazer dele um homem imune a qualquer acusação de racismo, como quer o blogueiro de Veja.

Devido ao caráter específico do racismo brasileiro e de sua assustadora difusão, nenhum de nós está completamente imunizado de proferir, desavisadamente, vez ou outra, uma opinião ou discurso com raízes racistas, embora tenhamos a obrigação moral de nos policiarmos para que isso seja evitado. Feliciano, por outro lado, faz do racismo um ponto central de sua pregação, de sua fama, de seu ofício. Portanto,se quisermos adjetivar alguém como Marco Feliciano, não seria inexato ou leviano chamá-lo, simplesmente, de racista.

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