Comportamento

Homenagem a dona Helena

dona helena

Por Debora Pereira

Eu nunca tive uma relação boa com a morte, com a ideia da morte. Também… quem será que tem, né?

Quando eu era criança e ouvia histórias de pessoas que perdiam pai, mãe, irmãos, avós, amigos queridos, e entrava em pânico. Como imaginar que minha vida poderia continuar sem alguém que me completava? Era como um quebra-cabeças que só faz sentido com todas as peças e é impossível repor a parte faltante.
Eu sempre tive dificuldade em lidar com a morte, com a dor irreparável da saudade, com o tristeza que o vazio da ausência provoca. Perdi pessoas que tiveram papel especial na minha vida e das quais me lembro com carinho. Wladmir, dona Neuza, dona Cleuza, Tia Neneca, minha bisa Ernestina, meu avô parterno seu Francisco. Mas eu só fui capaz de entender aquela angústia que eu sentia na infância só de levantar a hipótese da ausência quando perdi minha amiga Su. Nem eu sabia o quanto de lágrimas poderia chorar. A efemeridade da vida fez tanto sentido para mim naquele momento, que às vezes tento entender como ainda posso ser capaz amar.

Depois foi a vez de sofrer com a agonia do meu vôzinho Pedro. Homem de personalidade, que me deu amor suficiente para suprir a ausência do pai que não tive. Pessoa desprendida, cheia de senso de humor e que me ofereceu em forma de legado de vida a lição das coisas que realmente merecem ser valorizadas. Com a dor de seus últimos dias me fez uma encontrar uma força que eu nunca imaginei que tivesse e me deu a chance de poder retribuir e demonstrar a gratidão, o carinho, o respeito e a admiração que sempre tive por ele.
Quando eu era criança tinha a convicção de que meus avós, minha mãe, minha irmã e eu viveríamos sempre juntos e assim seria nossa partida. Eu não queria viver sem tê-los, mas não queria que eles chorassem uma partida precoce minha. Criança pode pensar qualquer coisa, né? Mas a vida passa com a intensidade e a velocidade de um furacão, devastador e implacável, levando nossos sonhos e nossas ilusões, transformando nossos sentimentos, deixando apenas os nossos medos mais primitivos como consolo.

A morte do meu avô Pedro quatro anos atrás mudou profundamente minha vida. Levou minha mãe e minha irmã para outra cidade e me distanciou da minha avó. Ambos os casos não por opção minha. Mas fatos que respeitei porque entendo que a dor nos torna irracionais.

Fiquei sabendo hoje pela manhã, nas escadas rolantes da Estação Jabaquara do Metrô, que minha avó Maria Helena não vive mais neste mundo. Pior, que sua partida aconteceu há mais de uma semana. Maior que a dor da perda é quando ela não vem acompanhada da despedida, daquele último adeus em forma de prece. Doi mais que bater o dedinho do pé na quina da mesa. Sofrer dói, mas sofrer fora de tempo dilacera.
Minha vó Helena é a responsável por todas as minhas manias, trejeitos e dengos. Ela me fez manhosa e birrenta porque me deu doses excessivas de amor e carinho. Quando bebê me fez bibelô e me protegeu em redoma; quando criança me fez bebê desprotegido; quando adolescente me fez criança mimada; quando adulta me permitiu ser a mais infantil das adolescentes. Se isso é ser avó, a minha cumpriu seu papel com louvor. O que vou sentir mais falta é daquilo o que a vida (ou a ausência dela) vai nos impedir de viver. Descanse em paz minha nega.

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