Entrevistas

Entrevista da semana: Wilson Roberto dos Santos

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Nascido no bairro do Brás, Wilson Roberto dos Santos passou a infância na Zona Leste de São Paulo, em bairros como Vila Alpina e Parque São Lucas.

É descendente de escravos de Minas Gerais que após a libertação migraram para a capital e aqui conseguiram constituir uma família. Filho de empregada doméstica e de um pugilista profissional (que mais tarde se tornaria funcionário público), sempre estudou em escolas públicas, numa época em que elas eram melhores que as particulares.

Aos doze anos de idade foi trabalhar num escritório de contabilidade, passando por uma metalúrgica, e prosseguindo seus estudos à noite. Com a conclusão do então curso Colegial ganhou uma bolsa de estudos para fazer o cursinho pré-vestibular no Colégio Equipe e, em 1974, entrou para a Escola de Comunicações e Artes da USP, onde concluiu seu curso de Comunicação Social – Jornalismo.

Em 1977, já formado, iniciou a carreira de jornalista, passando por veículos como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Jornal da Tarde, Rede Manchete e Rede TV!. Paralelamente, fez assessoria de imprensa para vários órgãos públicos, pois na época era possível acumular dois empregos.

Blog: Quais as principais mudanças do jornalismo nos últimos tempos?

Wilson Roberto: O advento da internet deflagrou mudanças fundamentais no jornalismo no mundo inteiro. Durante meu período de militância na chamada “mídia burguesa” era essencial organizar a narrativa dos textos jornalísticos – uma técnica redacional que me fora ensinada na faculdade – onde o mais importante vinha primeiro. Era o denominado “lead” e isso se dava porque os jornais tinham muito material e pouco espaço em papel, embora existissem jornais, como o recentemente extinto Jornal da Tarde e também o Jornal do Brasil, que privilegiavam grandes reportagens.

A internet mudou muito a forma de se fazer jornalismo?

A chegada da internet está eliminando essa técnica redacional porque as preocupações passaram a ser outras. A questão agora não é ir do mais ao menos importante, mas de buscar o contexto mais amplo para um fato, dado ou evento que se tornou notícia. Agora é preciso contextualizar sem o que fica impossível determinar a relevância, credibilidade, exatidão e pertinência de um dado, fato ou evento. Na internet a noticia está em todas as partes e o chamado furo jornalístico passou a ser irrelevante.

Tais mudanças se tornaram essenciais num momento em que somos obrigados a conviver com uma muita informação, que está alterando todos os nossos comportamentos em matéria de consumo dessas informações. Nesse aspecto vivemos um período de democratização relativa de tudo o que acontece.

Você acredita que a internet coloca em xeque as mídias tradicionais? Por quê?

As tais mídias tradicionais sempre tiveram um comportamento obscuro, formando com o poder tanto nas ditaduras quanto nos regimes democráticos. Sempre veicularam o que julgaram ser importante e da maneira que lhes fosse conveniente. Com a internet e em especial com as redes sociais, a disseminação da informação nas suas mais diversificadas óticas, vem obrigando as mídias tradicionais a veicular aspectos que elas detestam. Ainda assim, essas mídias ainda detêm um poder formidável e há um longo caminho a percorrer aqui no Brasil – que passa pela inclusão digital de milhões de brasileiros.

E nos próximos anos, quais os caminhos que a comunicação digital e as mídias tradicionais devem rumar?

O conteúdo digital e o impresso coexistiram lado a lado por pelo menos uma década, intensificando a variedade das mídias. Mas, agora, começou um processo de seleção e eu acredito que a informação de massa ficará resumida quase que inteiramente à mídia eletrônica, tanto é que pouca gente ainda compra jornal em bancas e a tendência que se apresenta é a de ter informação onde quer que estejamos. A televisão e o rádio devem se tornar mídias mais focadas no entretenimento e não no jornalismo de conteúdo e informação. O jornalismo esportivo, por razões óbvias, será o grande sobrevivente. Acho provável que os jornais terão apenas uma edição impressa uma ou duas vezes na semana, mas publicarão atualizações interativas e na internet.

Existe um movimento muito forte hoje, principalmente na internet, contra a mídia golpista, apelidada de PIG. Como você vê esse movimento?

A qualificação PIG pode ser nova, mas o comportamento dessa mídia tradicional sempre foi golpista. A partir da origem das famílias proprietárias desses veículos, fica fácil perceber o apoio dado a numerosos episódios de tentativas ou de golpes consolidados ao longo da história do País. Jornais que afirmam ter combatido as ditaduras de Vargas e a militar fizeram o oposto e se tornaram parceiros desses regimes de excessão.

Na Argentina os meios de comunicação tem se colocado contrários a Ley dos Medios. A exemplo da Argentina você acredita que o Brasil devia instituir um marco regulatório para os meios de comunicação? Isso infligiria os direitos da imprensa, como alegam as mídias tradicionais?

Li um artigo outro dia, onde quem escreveu colocava alguns questionamentos com os quais concordo.  Tomemos o exemplo da Folha de São Paulo. Este jornal sempre busca se colocar, em editoriais e em publicidade, como uma espécie de fiscal sagrado dos governos. Tudo bem. Mas é preciso não perder de vista que ela não recebeu essa incumbência da sociedade. Não foi votada. Não foi eleita.

Então a questão é: existe fiscal que não é fiscalizado? Jornalismo é, como todos os outros, um negócio. Em geral, quem investe em jornalismo não está atrás de dinheiro. Os lucros não costumam ser grandes. O que o jornalismo dá prestígio e influência. Empresários interessados em recompensas mais palpáveis fazem suas apostas em outras áreas. Por isso entendo que as mídias devem ser fiscalizadas. Assim como aqui, os proprietários dos veículos de comunicação argentinos não querem ser fiscalizados.

O ex-ministro das Comunicações, Franklin Martins, foi o mentor do nosso marco regulatório de imprensa, no qual descreveu os principais pontos do que seria a regulação. No texto estão o fim da concentração do mercado, o estímulo à regionalização da produção de conteúdo, a proibição de que políticos e seus parentes possam ser proprietários de veículos de comunicação e a  regulamentação do direito de resposta. A criação de um Conselho Federal de Jornalismo é o ponto mais polêmico porque os donos de jornais acham que o Conselho terá intuito de cercear o conteúdo do publicado na imprensa. Nem o ex-presidente Lula, nem a presidenta Dilma, com seus altos índices de popularidade, resolveram levar adiante a proposta do ex-ministro. O que causa receio no Executivo é de que haja desgaste político para o governo. Pelo mesmo motivo a presidenta Cristina Kirchner não o fará.

Para os novos jornalistas, quais os caminhos e desafios que irão enfrentar?

Acredito que o maior desafio do jovem é superar a baixa qualidade do ensino. Esperar por melhorias no ensino é perder tempo.  Aí surge a importância dos livros e da busca pelo conhecimento. Quem lê muito e lê bem, sabendo interpretar o que está escrito, certamente saberá escrever bem, apurar bem um fato e transmití-lo de maneira clara ao público leitor. À minha época de estudante as escolas públicas eram excelentes. As exceções existem, mas hoje só quem cursa colégios particulares tem acesso às universidades públicas.  A instituição das cotas foi um passo para a democratização do ensino público, assim como o Enem. Mas existe uma grande maioria que ainda vai demorar muito para ter esse acesso.

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